Wednesday, November 30, 2005

Ética de sandálias



Só mesmo Espinosa poderia criar uma espécie de "teologia da libertação" sem um Deus e sem livre arbítrio. Uma beleza. As aulas de Lia Levy têm sido inspiradoras. Hoje assisti à aula de sandálias e foi delicioso. Os hippies, afinal, nos deixaram alguma herança. Sandálias.

Sunday, November 27, 2005

mandala fractal

body modification

Ontem, na sede de o impensado, alguns queridos amigos conversavam animadamente sobre 'body modification'. Acho um fenômeno muito interessante e ainda não compreendido. É, eu sei, às vezes é difícil olhar, é chocante e repulsivo ver uma pessoa suspensa por ganchos introduzidos em suas costas ou outras coisinhas "piores". Mas tento evitar o julgamento moral e a tentação da crítica rápida. Sade também, era considerado tão repulsivo, tão insuportável ... Tudo bem, também vou evitar comparações fáceis e a tentação de considerar a(cultura)'body modification' como "arte" só pelo grau de perplexidade que produz. Mas num mundo atravessado intensamente pelas relações e interações virtuais, que alguns chamam de 'cybercultura', é possível que a manipulação do próprio corpo num nível extremo, ou seja, a tentativa de transformação de entranhas vivas em expressão artística e cultural, represente algo realmente novo, e não apenas uma manifestação doentia, como freqüentemente ouço por aí. Não vou publicar fotos sobre o tema, ainda mais num domingo!

Friday, November 25, 2005

social democracia

O PSDB tem protagonizado um espetáculo horrendo no congresso nacional. Amargura, fanatismo, irresponsabilidade, ressentimento, insensatez, descontrole, golpismo. Dos seus amigos do PFL nunca se poderia esperar outra coisa, tudo bem, mas bem que os "intelectuais" social-democratas poderiam ser dotados de um nível mínimo de equilíbrio e elegância, já que consideram-se habitantes de um patamar intelectual e político superior. Após a "doação" de parte importante do patrimônio público, muita conversa, CPI´s abafadas e apoio midiático de sobra, não conseguem suportar um governo que, apesar de suas misérias e complicações, é muitíssimo superior, inclusive em termos de ética, simplesmente, e pelo menos, pela relação que estabelece com o patrimônio público. Quanto ao PT, ainda há muito a desempenhar, não só pelo seu potencial e história, mas pelo horror que representaria o retorno da turminha privatista ao poder.

Tuesday, November 22, 2005

Obrigado Willis

Em 1902, o engenheiro Willis Carrier, formado na Universidade Cornell, N.Y., inventou o ar-condicionado.
Obrigado Willis.

Sunday, November 20, 2005

Seinfeld e a alegria absurda como sinal dos tempos

Quem nunca viu alguns capítulos do Sitcom “Seinfeld” deveria fazê-lo, nem que por puro exercício informal de filosofia da história ocidental contemporânea. Para quem não sabe, Seinfeld é um humorista americano de família judaica, daquele tipinho comum naquelas bandas, que sobe num palco, monta seu olhar carregado de pretensa inteligência e muita ironia e passa a destilar sua verve humorística sem preocupações outras que não o resultado de sua performance, avaliada, é claro, pelo riso imediato provocado. O que há de especial, então, em Seinfeld e seu “enlatado” made in New York? Há muito, digo sem pestanejar.
Em primeiro lugar a aparência (enganosa, como veremos adiante) de total despretensão do programa. Por esta razão, inclusive, o piloto da série quase não foi produzido. Ninguém queria bancar. É que a justificativa de Seinfeld (este é mesmo o nome do humorista) e seu produtor sobre o que seria o tema central dos roteiros na fase de produção foi simplesmente: ‘será sobre nada’. E realmente assim foi. O nada de preocupações cotidianas das mais comezinhas na vida dos quatro personagens principais que, em realidade, dizem muito mais sobre os EUA neste início de século XXI do que um sem número de análises “sérias” sobre o tema, pelo simples fato de que este nível micropolítico de “análise” humorística (muito ácida) permite a expressão de aspectos problemáticos e fundamentais de uma certa ordem social, que tem como seu paroxismo, neste nível, a produção de absurdidade na vida. Trata-se então, não da abordagem do “nada”, mas do absurdo, no sentido de que o absurdo é a manifestação da negação de sentidos claros ou apreensíveis.
Este é o valor intrínseco da série que durou várias temporadas, fazer humor com inteligência, sarcasmo, nonsense e crítica social cotidiana afiadíssima. Não vale a pena detalhar aqui roteiros, personagens ou histórias, cabe aos interessados assistir na TV a cabo ou em DVD os episódios de cerca de 25 minutos cada, e, aos poucos, as relações mais inauditas irão surgindo. Em segundo lugar, o que há de especial em Seinfeld é seu valor extrínseco, ou seja, sua relação com o contexto histórico que o acolheu. O programa entrou no ar na virada dos anos 80 para os 90. Como sabemos, a década de 90 foi marcada, nos EUA, pela política conservadora dos democratas (sabemos que os democratas não se consideram conservadores...). Só pudemos perceber do que eram capazes os falcões ultra-conservadores republicanos e, assim, a real diferença de seus pares democratas, após a trágica vitória de Bush e o início da aplicação de suas políticas proto-fascistas.
Em resumo, de um presidente saxofonista, apaixonado por jazz e cosmopolita, passamos para um caubói sulista caçador de tatus. De um presidente amante de charutos, estagiárias e boquetes nos salões da casa branca, passamos para um justiceiro perseguidor de terroristas à revelia da ONU, torturador de prisioneiros e propalador de conceitos perigosos, retrógrados e infantilóides como “eixo do mal”. Seinfeld (assim como Friends, mas esse é outro enlatado, muitíssimo menos interessante) é algo que nasceu, cresceu e se alimentou de um o momento histórico ligado, entre outras preocupações, a pequenas misérias morais cotidianas como traições, boquetes e desejos inconfessáveis. Para ódio da direita religiosa, essas vicissitudes representam nada mais do que a possibilidade de criação de vida, porque é da natureza da vida social humana sobre este planeta a constante encenação das tragicomédias da vida privada e suas conseqüências. O absurdo do poder, das instituições, dos relacionamentos, da cidade; todos eles estão impressos nos episódios de Seinfeld. O que não está presente em Seinfeld é o adoecimento da vida que causou, e que é diuturnamente potencializado, o ingresso dos ultra-conservadores no poder institucional americano. Por isso, Seinfeld perdeu sua função no final dos 90. Pensemos no que o substituiu. Um punhado de séries que tratam fundamentalmente dos mesmos e poucos assuntos. Essa foi e herança de muitos acontecimentos, entre eles os ataques de 11 de setembro de 2001, mas não penso que seja um elemento único ou mesmo principal. Os temas destas novas séries são, basicamente: morte, dor, sofrimento, terror, tortura, perversão. Há uma leva de enlatados de investigação policial post-mortem, investigação médica de crimes, seqüestros, abusos de todos os tipos e fenômenos sobrenaturais que, em comparação ao sucesso de Arquivo X, troca a criatividade ficcional, mistério, crítica (mesmo que pueril) a instituições governamentais e mágica como arma narrativa pela busca rasa por pavor e desespero. Parece haver uma crença absoluta num mal estar na civilização, só que de mau gosto. Por isso, penso que devemos assistir Seinfeld, não para “recordar”, por que recordar não é viver, como acreditam alguns, mas para encarar a pindaíba em que estamos e que se manifesta com intensidade nas produções culturais de massa do nó central do império.
Será que este exercício informal de análise histórica, como denominei antes, pode nos ajudar a pensar saídas, ações, produções afetivas, intelectuais e culturais para tentar dar conta dos desafios que estão diante de nossas vidas? Se faz urgente fazer amor (mesmo que “imoral”) em vez de guerra, se faz urgente largar as armas e tocar um instrumento qualquer (mesmo que mal tocado), se faz urgente trocar CSI por Seinfeld e, quem sabe, o próximo passo seja, definitivamente, desligar a TV e fazer algo mais interessante, mas antes, nada como dar umas boas gargalhadas das pequenas misérias que podem nos fazer viver de verdade e dignamente.

Saturday, November 12, 2005

parto natural

nasce o impensado. cortejando o virtual e lambendo o atual. rindo com a vida. celebrando o que é como é, o tudo do agora, aplicando umas machadadas aqui e ali, porque é necessário também golpear para afirmar, para esculpir, para transformar. nasce o impensado, e nasce sorrindo.